Feito no anos de ouro da NOVA ONDA (nouvelle vague) 1959, lançado nos cinemas de Paris em março de 1960 Título original À bout de souffle que significa algo como sem folego, é o primeiro longa metragem de Jean Luc Godard
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Godard |
Godard, que era uma figura bastante conhecida no meio “cinéfilo” francês, porque desde 1952 colaborava regularmente com a famosa revista Cahiers du cinéma. Godard nasceu em Paris em 3 de dezembro de 1930, mas como a mãe dele era filha de um banqueiro suíço ele passou boa parte dos anos de guerra na Suíça. Só voltou a Paris em 1948 para estudar Etnologia na Sorbonne. Evidentemente ele não durou muito como estudante universitário, dada a iconoplastia godariana que a gente tão bem conhece.
Ele começa a freqüentar assiduamente os cineclubes que fervilhavam na época em Paris, muitos deles apoiados pela Cinematheque francesa, cujo diretor Henri Langlois, foi uma figura muito importante para a preservação dos acervos de filmes na França durante os anos da ocupação nazista.
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Cinématheque |
Durante a ocupação, Langlois, com muito risco para si mesmo e para seus colaboradores, conseguiu guardar muitas cópias de filmes que teriam sido destruídos pelos nazistas, e tão logo acabou a ocupação, ele abriu esse espaço privilegiado de discussão do cinema mundial que foi a Cinematheque.
Vários jovens como Godard, Truffaut, Chaborl, Rivett, Romer, cresceram vendo esses filmes guardados pelo Henri Langlois, e viam esses filmes compulsivamente. O Godard inclusive era famoso nesse grupo cinéfilo, porque ele conhecia tão bem o acervo que ele podia entrar no cinema na hora exata pra ver a cena que ele queria ver no dia. Godard diz em uma entrevista que deu recentemente que ele aprendeu muito mais vendo filmes do que fazendo filmes. Isso é fundamental para entender a especificidade desse cinema, desse movimento que ficou conhecido como Nouvelle Vague – NOVA ONDA.
Um traço comum aos diretores da NOVA ONDA é o fato de que todos eles em alguma medida participaram dessa onda cinéfila que varreu a França desde o final da segunda guerra amparada nos filmes da cinematheque e nos vários cineclubes de Paris.
Alguns críticos de cinema, que já escreviam para revistas e jornal, resolveram criar uma revista própria a Cahiers du cinéma, que divulgava idéias que poderiam não ser bem recebidas pelos grandes meios de comunicação. Essa revista contou com a colaboração de jovens cinéfilos que passavam dias e dias dentro da cinematheque. Muitos desses jovens se tornaram baluartes dos cinema francês moderno da segunda metade do século XX. Foram eles o Resnais (um dos primeiros seguidores da Cahiers), o Rivett, o Godard, o Chabrol e o Truffout.
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Chabrol |
Esses meninos cresceram vendo filmes, porque havia um habito na Franca do pós guerra de promover sessões seguidas de debate. Então desde que o Truffaut tinha 15 anos (ele era meio marginal, havia saído da escola, vivia de pequenos golpes) ele passava o dia inteiro vendo filme e a noite ele debatia o filmes com senadores, advogados, professores, médicos, ou seja, pessoas de classes e áreas diferentes iam discutir o filme. De modo que os jovens ganharam muito cedo essa prática em argumentar contra ou a favor das coisas que eles amavam. Isso foi fundamental na preparação do exercício da critica por escrito.
Lembando que a critica depende de uma sustentação da sociedade. Quando havia um diálogo fecundo sobre cinema, quando fazia sentido falar de cinema, podiam aparecer críticos muito bons e quem sabe cineastras muito bons. Quando essas condições não são dadas o espaço da crítica tende a diminuir, dificilmente teremos grandes críticos num contexto em que não há mais essa discussão publica sobre cinema, como é o caso do nosso contexto.
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Rivette |
As idéias partilhadas por esse grupo era a politica dos autores, ou seja o responsável pelo filme não pode ser mais o produtor. O Diretor assumindo seu produto, pelo filme pronto. Então cada vez mais surgiram diretores autores, que se aproximavam cada vez mais da literatura. Gerando a possibilidade de podermos identificar a marca do diretor, o estilo de cada um em seus filmes. Noções de filmes bons ou não, de filmes de alta qualidade, são destruidas. O Truffaut, por exemplo, em um artigo de 1954 diz, "alta qualidade não faz sentido, o que faz sentido é autoralidade".
Logo, se lermos uma página de Machado de Assis, sabemos que é Machado de Assis. Se vermos uma cena de Godard, sabemos que é Godard.
Filmografia godariana da Nouvelle Vague
1959 - À bout de souffle
1960 - Le Petit soldat
1961 - Une femme est une femme
1962 - Vivre sa vie
1963 - Les Carabiniers
1963 - Le Mépris
1964 - Bande à part
1964 - Une femme mariée, fragments d'un film tourné en 1964 en noir et blanc
1965 - Alphaville, une étrange aventure de Lemmy Caution
1965 - Pierrot le fou
1966 - Masculine-feminine, 15 faits précis
1966 - Made in U.S.A.
1967 - Deux ou trois choses que je sais d'elle
1967 - La chinoise, ou plutot a la chinoise
1967 – Week-end
Eu mantive na filmografia seleta do Godard, os títulos dos filmes originais em francês, porque alguns filmes receberam uma tradução um tanto estranhas, como o próprio Acossado.

Na verdade antes de fazer o Acossado, Godard fez em 1957 um curta metragem muito interessante chamado Tous les garçons s'appellant Patrick, que possui uma linguagem muito parecida com a utilizada em Acossado.
Depois da estréia com o Acossado, no ano seguinte Godard faz Une Femme est une Femme ou Uma mulher é uma mulher, mas que em francês soa mais interessante “Uma mulher é infame” une femme quer dizer infame. E viver sua vida, com a Anna Karina, esposa do Godard, com quem ele se casou em 1960. Esse filme foi premiado em Veneza, é muito interessante, são 12 quadros na vida de uma mulher da vida.
O Desprezo, que é possivelmente o filme que custou mais caro em toda carreira do Godard, tem no elenco o Michel Piccoli e a Brigitte Bardot no auge da sua fama e beleza. Esse filme teve uma cópia em DVD no Brasil somente em 2009. O Godard, irônico como sempre, começa o filme com a cena famosa, onde ele vai dizendo os créditos, muito inovador, créditos que não são escritos e sim falados pelo próprio diretor, enquanto ele filma a câmera se aproximando da câmera, ou seja, do olho do espectador. A apresentação dos créditos termina com uma bonita frase do André Bazan (fundador do Cahiers du cinéma) que diz “o cinema se adequa aos sonhos do espectador”, ou seja, o cinema é uma arte privilegiada, por suportar em grande medida as projeções narcísicas e desejantes dos espectadores, o que se vê na tela é em larga medida o que nós somos capazes de colocar na tela, o diretor não entrega pronto o conteúdo do filme, o espectador é colaborador.

E com isso a câmera vai subindo, percorrendo, “lambendo” o corpo da Brigitte e mudando a luz do cenário, que começa azul, depois fica branca e depois fica vermelha, fazendo uma piada com a bunda da Brigitte Bardot e com a França.
Depois Godard retoma uma produção mais “artesanal” como nos seus primeiros filmes, mais acessíveis com relação aos filmes que ele faria na década de 70, mas, muito mais radicais com relação a experimentação com a linguagem. Bande a Part, Alphaville, Pierrot Le fou (com Belmondo, astro do Acossado); Made in USA, A Chinesa (um dos grande filmes do diretor, já marcando a virada para um cinema assumidamente politico e as vezes irônico)
Godard cria obras cujos tratamentos teórico e intelectual, produzem “peças” esteticamente completas. Seus filmes abordam idéias em acepção pura e sofisticada. Muitos filmes com o mesmo tema de fundo: um sujeito com uma idéia e vai até o fim pra realiza-la. Filmes imprevisíveis, obras maravilhosas e muito distintas, e não por acaso estão na lista dos “filmes da minha vida”.

Sobre esse período da história do cinema, foi lançado em 2009 um filme que celebra toda essa transgressão vivida na NOVA ONDA.
Les Deux de La Vague
2009 - França - 91 minutos
Em tom de celebração dos 50 anos da Nouvelle Vague, o documentário relembra a apresentação de Os Incompreendidos, de François Truffaut, no Festival de Cannes em 1959, e a criação de Acossado, de Jean-Luc Godard, mostrando assim o nascimento do movimento que mudou a forma de se fazer cinema na França e revelou ao mundo dois dos maiores cineastas de todos os tempos, Truffaut e Godard. Retrata também a amizade naquela época entre os dois artistas de personalidades tão opostas. No Brasil o filme veio com o nome Dois na onda.
No Bloge do crítico de cinema Rubens Ewald Filho há um artigo interessante sobre o filme, no qual o crítico lembra que o diretor Emmanuel Laurent não chamou os sobreviventes para dar depoimentos. A proposta do diretor é reunir clipes dos filmes, matérias de jornais, cine jornais, em uma espécie de colagem (timeline).
Ainda assim Rubens considerou o filme como "um pouco de história de cinema, não toda. Mas ainda assim vale conferir".
Link do Blog

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Corrida no Louvre (citação à Bande a Part de Godard) |
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Bertolucci |
O cineasta tenta, assim, alimentar o inconformismo nos jovens de hoje que aprenderam a ver em termos como revolução uma conotação negativa. Busca, com Matthew e os gêmeos, resgatar o tempo em que o maior desacordo entre EUA e França envolvia o humor de Jerry Lewis. E o seu filme prega, acima de tudo, a crença no cinema como arma da transformação.
Entre inúmeras citações explícitas de obras alheias, a referência a Sergei Eisenstein (1898-1948) aparece de forma velada. Na cena final, ao fazer os policiais avançarem sobre a platéia, Bertolucci toma do mestre russo a sua mais famosa ferramenta, o enquadramento engajado. Com isso, não deixa dúvidas sobre o seu libelo político.
"Eu nasci na Champs-Élyssés, em 1959, nas claçadas da Champs-Élyssés, e as primeiras palavras que eu disse foram 'New York herald tribune; new york herald tribune; new york herald tribune'"
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Existe uma frase que diz que "os artistas que não passaram dos anos 80, morreram de desgosto", se isso for certo, me faz sentir um tanto culpada pela morte de tantos nomes transgressores e inspiradores. Me sinto culpada por não ser capaz de viver tudo o que eles preparam pra nós!
Mas de algum modo, o fato de Chabrol ter produzido até pouco antes de morrer em 2010, e Resnais estar em plena atividade, e sobretudo, o fato de ainda poder assistir a uma estréia de Godard nos cinemas em pleno século XXI, me dá vida, me dá amor e inteligência. Me faz pensar que eu estou seguindo a lei da arte, que estou subindo até a altura dela e me deixa maravilhada como uma criança de olhos puros.
Mas de algum modo, o fato de Chabrol ter produzido até pouco antes de morrer em 2010, e Resnais estar em plena atividade, e sobretudo, o fato de ainda poder assistir a uma estréia de Godard nos cinemas em pleno século XXI, me dá vida, me dá amor e inteligência. Me faz pensar que eu estou seguindo a lei da arte, que estou subindo até a altura dela e me deixa maravilhada como uma criança de olhos puros.
vc fala disso com paixão!
ResponderExcluirMuita paixão!!! E não dá pra não ficar de quatro pela sétima arte!
ResponderExcluirNão, não dá.
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